Uma Revolução no Inferno - por Celso Fernandes Campilongo

Uma Revolução no Inferno - por Celso Fernandes Campilongo

“Uma Revolução no Inferno”

Celso Fernandes Campilongo*

É prazeroso – mas não fácil – resenhar “Uma Revolução no Inferno”, de Tito Mellão Laraya (Lisboa, Chiado Editora, 2016). A dificuldade é imposta já pelo nome do Autor, com sonoridade musical e silabar literário. Onomástico que condensa a personalidade artística de Tito: músico e escritor. Romance, poesia, ensaio, ficção, história infantil, erotismo e refinamento estão espalhados não só neste livro, mas na ampla obra de Tito, publicada no Brasil, Portugal e Itália.

O estilo de Tito Mellão Laraya é heterodoxo: o romancista salta, agilmente, da prosa para a poesia e, por vezes, faz o leitor pensar que os textos são letras de canções harmoniosas. Estejamos preparados: pensar antes de escrever e descobrir prismas novos sobre a vida integram o método de Tito. Alinha-se aos escritores que “sempre incomodaram” e “pensam diferente”. Nessa fonte o Autor bebe formas meditadas e originais.

Tito possui estilo reflexivo. É escritor-filósofo. Combina fantasia e realidade com elegância que convida a pensar. Aproxima-se do turbilhão modernista, irónico e irreverente de Oswald de Andrade. Invoca mitos folclóricos, histórias bíblicas, contos de fada e teses sociais, à moda de Monteiro Lobato. Pende para a tradição ensaística e a crítica literária, como Antônio Cândido. Tem a delicadeza contundente e cortante de Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. Babel? Nada disso. Passado e tradição sempre com olhos para o futuro. O velho sempre novo.

Não por acaso, Tito estudou nos mesmos bancos acadêmicos, no mesmo século e na mesma Escola que forjou Oswald, Lobato, Cândido, Lygia e Hilda, para ficarmos no século XX. Tito tem berço literário. Ninguém passa impunemente pelas Arcadas do Largo de São Francisco. O exercício de escrever faz bem a Tito. Dentre as paixões que o Autor revela, além da escrita e das mulheres amadas, sempre quis respirar os mesmos ares que Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Vicente de Carvalho e, de modo especialíssimo, Castro Alves respiraram.

No Largo, foi aluno de Goffredo da Silva Telles Jr., que foi casado com Lygia e considerava Castro Alves o maior brasileiro de todos os tempos. Ainda assim, como ocorre com frequência com os espíritos iluminados, Tito reclama da Escola! Acreditava que ali aprenderia a escrever. Sonho ou realização? Alegria ou fracasso? Este livro e o conjunto da obra de Tito trazem a resposta. José ou Freud talvez expliquem o paradoxo: Tito aprendeu a escrever no Largo que sempre formou escritores, mas onde nunca se ensinou este ofício. Garanto que foi bom aluno! A mística das Arcadas é implacável.

Tito gosta de binômios e antinomias. Recorre, com frequência, a essas formas estilísticas. Brinca brilhantemente com elas: Tito ou José, a unidade de uma diferença? Desdobra sua narrativa em outros duais: ser e querer; pensar e sentir; existencial e material; crítico e esperançoso, por exemplo. Sua escrita redescreve não o “Livro de Jó” ou a obra de Freud, como sugere. “Uma Revolução no Inferno” indaga sobre a essência paradoxal do ser humano e as aporias que aproximam e afastam fracasso e realização.

Seu texto é tautológico: feliz porque existencial e existencial porque feliz. Como José (ou Tito?), que modifica o grupo enquanto modifica a si mesmo! Assim, o estilo é, também, autológico. Não pensa o mundo do lado de fora ou acima dos mortais. Pensa no mundo e de um observatório inafastável: o próprio mundo. É daí que brota a confiança esperançosa de José.

Tito não revela apenas amor pela escrita. Dicotômica e paradoxalmente, sente o “peito doer” por ser poeta, confessa. Amor e dor ao mesmo tempo. Da dor brota a alegria do texto e a paixão pela literatura e pela vida. Tito afirma que tudo oscila entre o sim e o não, o querer e o desprezar. Não creio. A trama do seu texto, na reconstrução de José e de Freud, revela muito mais: a simultaneidade dos contrários. A implicação e polaridade invocada por outro de seus mestres nas Arcadas: Reale. A palavra de um homem que pensa diferente, com já disseram sobre Tito.

Maura Cristina, Larissa, as meninas das flores e do primeiro beijo são donzelas que, como na vida real, alegram e angustiam os poetas, tudo ao mesmo tempo. Complexo e caótico: por isso mesmo, belo e poético.

Os “Três Porquinhos”, Cinderela e Gata Borralheira sugerem aventuras infantis. São estórias recriadas com a mesma picardia do Vampiro erótico e sedutor descrito por Tito. Em cada página, um estilo renovado, provocativo e instigante. Uma leitura que faz pensar e incomoda, como convém à verdadeira literatura.  “Beijo no pescoço”, diria Tito. Sem ser crítico literário e, por dever de ofício, mais treinado na literatura jurídico-acadêmica do que na literatura artística, não hesito em dizer: “Uma Revolução no Inferno” é excelente leitura!

 

São Paulo, Natal de 2018

 

*Celso Fernandes Campilongo é Professor Titular e Vice-Diretor da Faculdade de Direito da USP e Coordenador do Núcleo de Filosofia do Direito do Programa de Pós-Graduação da PUC-SP. Formado no Largo de São Francisco em 1980.

 

 

 

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