Análise crítica do livro: A busca no tempo perdido - autor Tito Mellão Laraya

Análise crítica do livro: A busca no tempo perdido - autor Tito Mellão Laraya

Análise crítica do livro A busca no tempo perdido, de Tito Mellão Laraya

Por Alexandra Vieira de Almeida

Doutora em Literatura Comparada

 

            O livro a que se destina tal crítica merece uma atenção especial, ele se constrói na sua maior parte como uma paródia fina com relação a vários textos da tradição literária ou filosófica. Constituído por duas partes: “A busca no tempo perdido” e “A descoberta: o não tempo”, o fio condutor que permeia estes dois textos, como os próprios subtítulos indicam abordam a temática tão universal e trabalhada há séculos por várias áreas do conhecimento. Referindo-se ao livro 7, o último da coleção Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, o autor nos brinda com uma análise apurada sobre o tempo, não medido pela lógica memorialística, que busca conduzir os fios do pensamento pelo viés da consciência interior. A “memória involuntária” de que tratava Proust na sua obra monumental ainda se prende na relação passado/presente, embora a consciência não seja linear e cronológica como o padrão entrevê. Maria Lucia Guimarães de Faria, no seu ensaio “Proust e a poética da memória”, demonstra a procura do narrador pelo “tempo em estado puro”, em que passado e presente coincidem simultaneamente, embora pareçam “momentos incompatíveis”. Aqui, neste livro de Tito, o tempo no qual o narrador se refere ironicamente não existe e o texto literário seria a forma de o autor traduzir esta dimensão imaterial, que é Deus. A obra literária se reporta à tradição não como um passado morto, distante no tempo. Toda obra é uma biblioteca, como pensada por Borges, em que cada texto é a reconstrução de fragmentos não ligados ao tempo, mas à força mimética do real. Tito bem soube conduzir sua reflexão primorosa desta forma. O pensar é a principal ferramenta da obra artística, atrelada à linguagem ela forma a rica tessitura do artista que se refere à uma gama infinita de textos costurados pelos gênios literários. O importante filósofo Emmanuel Carneiro Leão, que aponta para uma crítica para além da mesmice conceitual, assim define este tipo de pensamento: “Se, para o conhecimento, o grande desafio está em conhecer o desconhecido, para o pensamento, o desafio é pensar o conhecido. Todo pensamento só pensa o já pensado no e pelo não pensado”. Isto é bem realizado, quando o narrador no prefácio de A busca no tempo perdido, assim escreve: “A escolha do título da obra, que se parece com a coleção de Marcel Proust, é proposital. Conta a história que o escritor não contou...” Desta forma, toda obra seria uma obra em devir, por ser terminada por outro autor, que não é nada mais nada menos que um leitor desta biblioteca perene.

 

            O narrador aqui dialoga com Proust, com Hegel, com as fábulas antigas, os contos de fada, fazendo uma paródia elegante destes textos que ultrapassam o tempo, se vivenciando na realidade perene da “experiência interior”, como construída na segunda parte do livro que se refere ao tempo da eternidade, o tempo de Deus, o não tempo, ou seja, o presente, que mesmo assim, não é tempo. Se Hegel se relaciona à visão dialética de mundo, em que duas ideias contrapostas se mostram, uma guerreando com a outra, finaliza com uma síntese, que coloca um apaziguamento nas relações ao longo dos momentos históricos. Tito, nesta obra, ultrapassa esta visão dialética ao fazer uma “poética dos fragmentos” que não se opõem de forma dialética, mas se complementam como no princípio pré-socrático. Utiliza-se da “imagem poética”, tão bem estudada por Octavio Paz, no seu texto crítico “A imagem”. Esta, segundo o teórico mexicano, “desafia o princípio da contradição”, pois “o pesado é o ligeiro”. Desafiando a dialética de Hegel, Tito se lança no desconhecido da massa encefálica poética que conjuga o entrelaçamento de realidades díspares sem haver uma dialética, um debate. Isto é puro erotismo, em que a unidade do casal abarca a pluralidade da realidade. A imagem para isto é a solidão, tão bem louvada pelo narrador como seu caminho necessário para sua escrita. Se o outro é necessário, na dialética hegeliana, o pensamento narcisístico de Tito conduz ao espelho metafórico na consciência interior que escapa ao diálogo massivo dos inquéritos. Nesta obra em questão, o narrador monologa com o leitor, para que este sirva de espelho e enfrentamento do narrador, não o espelho da superfície lisa, mas também diferenciado e nublado pelo olhar crítico do leitor que não é sarcástico, de um parodismo elegante. Não seria a paródia a forma essencial de todo escritor? Não a paródia que esquarteja o texto anterior, mas que monologa com o dentro para, que daí, o fora se torne mais vivo e presente. Este pensar o não pensado de que falou Emmanuel Carneiro Leão seria uma grande paródia do tempo, que não se dimensiona no passado, mas na eternidade do não tempo de cada novo autor.

            Outro fator interessantíssimo de que se utiliza o narrador aqui neste livro, é a utilização oscilante da primeira e terceira pessoas, que não se equacionam numa mecânica da lógica linear e maçante de um só tempo. Fugindo ao tempo, o uso das duas formas de narrativa enfatizam ainda mais o teor fragmentário do texto que escapa ao totalitarismo fechado de apenas uma visão. A pluralidade de visões perfaz o voo enigmático do literário. A narrativa aqui tem “seu próprio tempo” que é o não tempo, discutida na segunda parte da obra por aqui analisada. É como se a escrita fosse um agente transformador. A escrita transforma o homem, e, aqui, o ser Jesus, ser de luz, transforma, influencia sua escrita. A relação do símbolo da luz permeia esta primeira parte na narrativa que desce até a cruz para se fazer humano, a essência do ser. Buscar a essência do ser, sem máscaras, é o objetivo do narrador neste livro, e, aqui, a figura de Jesus seria o emblema desta essência que transforma. A escrita se dimensiona neste sagrado, que é o lugar da essência que se localiza no não tempo, enquanto a aparência é máscara e se traduz no tempo limitante da cronologia. O narrador se utiliza de ricas metáforas, faz rima interna de palavras na sua narrativa, para revelar esta essência crística, como a imagem da estrela, que se mostra como arquitetura do ser, sua humanização. O narrador diz: “Foi escrevendo que aprendi a me humanizar, e foi sendo eu, que sou feliz!” Mas este ser não vive às cegas, não fica preso ao acaso, ele é guiado pela relação entre o livre arbítrio e a graça divina. O narrador continua: “Muitas vezes há dúvidas sobre o caminho a seguir, sobre qual a escolha a fazer, e aí a importância do livre arbítrio. Pois o estado de graça é o contato íntimo com a divindade de amor, de justiça e de paz, já a desolação é o viver na ausência da divindade, caminhando na aridez do deserto.” No livro “História da filosofia cristã”, de Philotheus Boehner e Etienne Gilson, estes teóricos estudaram sobre esta “vontade livre” ou “liberum arbitrium”, de Santo Agostinho. Eles se referem a este teólogo e santo cristão: “O poder da vontade para optar livremente entre o bem e o mal baseia-se na sua aptidão para participar da felicidade”. A segunda parte do livro complementa esta mesma visão, pois os fragmentos usados por Tito não são tão fragmentários assim, complementam-se num jogo literário rico e requintado.

            A segunda parte ainda continua a trabalhar com esta realidade de Deus. Utiliza aqui máximas ligadas ao “si mesmo”, esta visão interior, da alma, a essência do ser. E se é essência, o tempo do pensamento não é tempo. Esta é a descoberta do narrador, não o tempo perdido, mas o agora, o momento presente que é jogo, paródia sobre o tempo. Se a primeira parte é um grande questionamento, a segunda parte é um achado, um fiat lux para as dúvidas do narrador, apresentadas tão belamente no primeiro momento. O autor Tito aqui continua o que é seu estilo pessoal, o livro com reflexões e meditações sobre a escrita, sobre a vida, fugindo da erudição vazia para atingir a essência do pensamento, pois se ele se afasta de uma análise fria da música erudita, aproxima-se de uma música da natureza, a música divina, a orquestra da palavra silenciosa, a “música callada”, de que falava San Juan de La Cruz. Portanto, a obra aqui em questão é uma refinada sinfonia parodística do “eterno retorno” ao literário da tradição não vista como passado e de forma linear, mas como uma música viva, uma “chama de amor viva” que preenche os vazios labirínticos de outros textos, numa biblioteca intertextual e dinâmica.

 

 

 

 

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